
Sol Sertão Online
Colunista
O nascimento de um filho é amplamente celebrado como um dos momentos mais significativos da vida de uma mulher. No entanto, para muitas, essa experiência é atravessada por medo, humilhação e sofrimento emocional profundo, sentimentos que nem sempre são compreendidos ou nomeados no momento do parto.
A violência obstétrica permanece como uma realidade silenciosa e, frequentemente, naturalizada. Gritos, ironias, pressão psicológica e a realização de procedimentos sem o consentimento da paciente são, muitas vezes, incorporados pelas mulheres como se fossem etapas inevitáveis do processo.
Na prática clínica, é comum que pacientes carreguem por anos sentimentos de culpa, raiva e inadequação sem conseguir relacionar tais emoções à forma como foram tratadas durante o nascimento. O trauma pode se manifestar de forma indireta, através de crises de ansiedade, depressão pós-parto, dificuldade de vínculo com o filho ou medo de engravidar novamente.
Um exemplo recorrente de violência é a aplicação da manobra de Kristeller — técnica de pressão abdominal para acelerar a saída do bebê —, a qual é duramente criticada por entidades médicas internacionais. Além de danos físicos, como dores intensas e dificuldade de locomoção, tais práticas deixam marcas psicológicas profundas.
Muitas mulheres cresceram sob a crença de que o sofrimento é inerente à maternidade. Esse pensamento é reforçado por frases como "o importante é que o bebê nasceu saudável", que acabam invalidando a dor física e emocional da mãe.
A violência obstétrica não se resume a agressões físicas; ela se manifesta na negligência, na desumanização do cuidado e na perda da autonomia da mulher em um momento de extrema vulnerabilidade.
O acolhimento psicológico desempenha um papel crucial na recuperação. Quando a mulher encontra um espaço seguro para ter sua dor legitimada, ela consegue reorganizar emocionalmente a experiência vivida. Dar nome ao trauma é o primeiro passo para que ele deixe de agir de forma silenciosa na vida psíquica.
Debater a violência obstétrica não significa fomentar o medo da maternidade ou criar conflitos com profissionais de saúde, mas sim ampliar a consciência sobre a necessidade de respeito e humanização. Toda mulher merece ser tratada com dignidade e ter sua dor reconhecida e cuidada.
Referência: Informações adaptadas de CNN Brasil.
Carregando autenticação...
Carregando comentários...