
Sol Sertão Online
Colunista
Um sinal de pontuação, outrora símbolo de refinamento linguístico e presente em obras de mestres da literatura mundial, encontra-se sob intenso escrutínio na era da inteligência artificial. O travessão, que enriquece o texto com pausas reflexivas, digressões e ênfases, passou a ser visto por muitos como um indicativo de que o conteúdo foi gerado por máquinas, como uma espécie de "prova do crime".
A popularização de ferramentas como o ChatGPT alimentou a desconfiança em relação ao uso do travessão, especialmente quando empregado com valor semelhante ao da vírgula, para intercalar ideias ou criar pausas significativas. No entanto, a história da literatura demonstra o contrário. Obras de Machado de Assis, por exemplo, como "Memórias Póstumas de Brás Cubas", ostentam o uso do travessão em passagens que datam de muito antes da existência da inteligência artificial:
"Mas, enfim, vivia. — E que mal há nisso? — perguntar-me-á algum leitor."
Assim como Machado, grandes nomes como Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Fiódor Dostoiévski, Marcel Proust, Emily Dickinson e até Shakespeare utilizaram o travessão para conferir nuances e profundidade aos seus escritos. Esse sinal é frequentemente associado a um domínio apurado da norma padrão da língua, conferindo clareza e fluidez a parágrafos que, de outra forma, poderiam se tornar densos.
Especialistas argumentam que, embora uma ferramenta de IA possa, de fato, reproduzir o uso do travessão ao se basear em textos existentes, sua presença isolada não deve ser motivo de desconfiança imediata. A ideia de que o travessão é uma marca exclusiva de textos gerados por IA é, portanto, um equívoco.
Luiz Leduíno de Salles Neto, professor do ICT/Unifesp, ressalta que as ferramentas de detecção de IA não são infalíveis e podem gerar falsos positivos. Ele sugere que, em ambientes acadêmicos, um professor que observe uma mudança abrupta no estilo de escrita de um aluno, com a adoção de recursos mais elaborados como o travessão, deveria dialogar com o estudante para compreender as razões por trás dessa alteração, em vez de presumir o uso de IA.
A verdade é que a presença ou ausência do travessão, por si só, não é um determinante confiável para identificar se um texto foi produzido por inteligência artificial. Se o uso deste sinal torna um parágrafo mais claro e fluído, os escritores devem se sentir livres para empregá-lo, lembrando que autores consagrados o utilizaram para enriquecer suas obras.
O travessão oferece diversas funcionalidades, como:
Portanto, a próxima vez que se deparar com um travessão, lembre-se de que ele é um recurso literário valioso, utilizado por gênios da escrita, e não um mero indicativo de automação.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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