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Caio Alves da Gama
Colunista
Casais de diferentes nacionalidades relatam ter sido vítimas de graves equívocos em clínicas de fertilidade localizadas no norte de Chipre, um território onde a regulamentação é escassa e as leis da União Europeia não se aplicam. As denúncias, investigadas pela BBC News, apontam para o uso de doadores de esperma e óvulos incorretos, com potencial de negligência ou fraude por parte das instituições.
Laura e Beth, um casal britânico, relatam o choque ao descobrir, após quase uma década, que seus dois filhos, James e Kate, concebidos por Fertilização In Vitro (FIV) em uma clínica no norte de Chipre, não foram gerados pelo mesmo doador de esperma que haviam escolhido. Os testes de DNA revelaram que as crianças sequer tinham parentesco biológico entre si, e nenhum deles possuía relação com o doador anônimo selecionado, apelidado de "Finn".
"Veio uma sensação de pavor ao saber que algo havia saído muito errado", desabafa Beth. "E o que aquilo significaria para as crianças?" A busca por clareza levou anos, com a descoberta abalando a confiança no processo e na clínica.
As investigações revelaram que o caso de Laura e Beth não é isolado. Pelo menos outras seis famílias britânicas teriam enfrentado situações semelhantes, com suspeitas de uso indevido de doadores de esperma e óvulos. Todas as famílias envolvidas nas denúncias realizaram testes de DNA comerciais que confirmaram seus temores.
O norte de Chipre se consolidou como um destino popular para tratamentos de fertilidade, especialmente para cidadãos britânicos, devido aos preços atrativos, promessas de altas taxas de sucesso e a ampla disponibilidade de doadores de esperma e óvulos de diversas partes do mundo. A ausência de uma regulamentação robusta, comparada a países como o Reino Unido, permite que clínicas ofereçam procedimentos ilegais em outras jurisdições, como a seleção de sexo por motivos não médicos.
Especialistas em fertilidade europeus apontam que, embora erros acidentais em FIV sejam raros, a repetição de equívocos em larga escala, envolvendo a mesma equipe médica, pode indicar "negligência" ou "fraude". A falta de um órgão regulador independente no território agrava a situação, deixando as clínicas a mercê da consciência de seus proprietários.
Durante a investigação, a equipe de reportagem buscou contato com a clínica Dogus FIV, onde Laura e Beth realizaram o tratamento em 2011. A médica Firdevs Uguz Tip, que teria supervisionado os procedimentos, negou ser responsável pela encomenda de esperma na Dogus e questionou a confiabilidade dos testes de DNA apresentados. Uguz Tip também declarou à BBC que não realizou tratamentos de FIV entre 2011 e 2014, período em que o casal foi paciente, apesar de informações no site da clínica indicarem o contrário.
Mais recentemente, duas outras famílias britânicas, tratadas em outra clínica criada por Uguz Tip, o Miracle FIV, também relataram suspeitas de uso incorreto de doadoras de óvulos. Testes de DNA confirmaram as suspeitas. Uma das mães, sob pseudônimo, expressou sua preocupação: "Eu só não quero mentir para eles sobre a sua origem." Uguz Tip, por sua vez, afirmou que a escolha das doadoras de óvulos era feita "exclusivamente" pelo centro e que não fornecia perfis de doadoras que descrevessem uma "pessoa específica".
A descoberta sobre a verdadeira origem genética abala profundamente a identidade das crianças. James, agora adolescente, expressa sua confusão: "Você não pode simplesmente dizer que alguém é alguma coisa e, depois, que não é. Isso é ruim. Identidade é o mais importante." Apesar da revelação, a união familiar permanece forte, com Kate afirmando: "Nós crescemos juntos e nossas mães nos criaram. Ainda somos uma família, mesmo que não de sangue."
Beth e Laura buscam justiça e esperam que o caso sirva de alerta para outros pais que consideram tratamentos de fertilidade no exterior, ressaltando a importância da regulamentação e da transparência em um processo tão delicado e fundamental para a formação de uma família.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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