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Sol Sertão Online
Colunista
Uma tendência recente nas redes sociais tem sugerido uma solução "mágica" para interromper crises de choro em crianças: a técnica de chamar por uma pessoa inexistente, geralmente chamada de "Jéssica". Ao anunciar com mistério a chegada de alguém desconhecido, os pais conseguem, momentaneamente, confundir a criança e cessar a birra. No entanto, o que parece ser um truque simples gera debates profundos entre educadores e psicólogos.
O efeito observado não é fruto de qualquer propriedade calmante do nome, mas sim de um mecanismo psicológico conhecido como redirecionamento de atenção ou distração ativa. Quando a criança está em crise, ela é dominada por um turbilhão emocional que seu cérebro ainda não consegue processar. O estímulo externo e inesperado da "Jéssica" compete com a desregulação interna, forçando a criança a mudar o foco.
Segundo a professora da Unesp, Luciene Tognetta, a inteligência na primeira infância é predominantemente prática. Baseando-se nos estudos de Jean Piaget, Tognetta explica que a criança constrói conhecimento por meio de experiências sensoriais. Por isso, mudar a entonação da voz ou apontar para um elemento externo pode ser eficiente para retirar o filho de um estado de caos emocional.
Apesar da eficácia imediata em casos de birra, a técnica possui limitações severas. Bruno Jardini Mäder, coordenador de Psicologia das Faculdades do Pequeno Príncipe, alerta que o método não funciona quando o choro é motivado por necessidades reais, como fome ou exaustão. Nesses casos, a necessidade fisiológica é mais forte que a distração, exigindo estratégias de acolhimento e regulação.
Além disso, o uso repetitivo do redirecionamento pode prejudicar o desenvolvimento da autorregulação emocional. A birra é, geralmente, a expressão de uma frustração. Se a criança é constantemente distraída, ela perde a oportunidade de aprender a nomear seus sentimentos e a lidar com a frustração, deixando de contar com o apoio cognitivo maduro dos pais para processar a emoção.
Para além do impacto psicológico, especialistas questionam a espetacularização do sofrimento infantil. A gravação de vídeos de crianças em momentos de descontrole para a obtenção de curtidas e engajamento é vista com preocupação. O que pode parecer "fofinho" para quem assiste é, na verdade, o registro de um momento de insegurança da criança, que pode gerar constrangimentos futuros ou ser utilizado de forma inadequada após a publicação.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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