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Início/Saúde
Solidão e traumas: Por que jovens chineses estão adotando "pais virtuais" nas redes sociais?
Saúde
Os jovens chineses solitários e desiludidos que buscam carinho e conexão com 'pais virtuais' — Foto: BBC/Andro Saini

Solidão e traumas: Por que jovens chineses estão adotando "pais virtuais" nas redes sociais?

SS

Sol Sertão Online

Colunista

26 de abril de 2026
5 min de leitura

Em meio a pressões laborais extremas e lacunas afetivas, uma tendência inusitada cresce na China: a busca por "pais virtuais" nas redes sociais. No Douyin, a versão chinesa do TikTok, influenciadores como Pan Huqian e Zhang Xiuping conquistaram mais de 1,8 milhão de seguidores ao oferecerem acolhimento e validação emocional para jovens que se sentem negligenciados por suas famílias biológicas.

O contraste entre a pressão e o afeto

Para muitos jovens das gerações Millennial e Z, a dinâmica familiar tradicional chinesa prioriza a obediência e as obrigações em detrimento do afeto. Vincent Zhang, um desenvolvedor web em Xangai que enfrenta a exaustiva jornada de trabalho "996" (das 9h às 21h, seis dias por semana), relata que as interações com seus pais reais são marcadas por críticas à sua carreira e cobranças sociais.

Em contrapartida, os vídeos de Pan e Zhang trazem mensagens de apoio, perguntando se os espectadores estão felizes e validando seu cansaço. Para Vincent, esse carinho digital é essencial: "Eles me dão o único carinho da minha vida. É melhor do que nada", afirma.

Cultura do trauma e a "literatura de sopa de abobrinha"

A insatisfação juvenil também se manifesta através do humor. A tendência chamada de "literatura de sopa de abobrinha" viralizou ao retratar a falta de comunicação nas famílias chinesas, onde os desejos dos filhos são frequentemente ignorados sob a justificativa de que os pais sabem o que é melhor para eles.

Casos como o de Zhao Xuan, que enfrentou pressões da mãe para abandonar a carreira na França e retornar à China para cuidar do irmão — refletindo a preferência cultural por filhos homens para carregar a linhagem familiar —, demonstram a profundidade desses conflitos. Zhao passou a utilizar memes e vídeos para lidar com a frustração e perceber que sua experiência não é isolada.

Raízes históricas e a barreira geracional

Especialistas apontam que a dificuldade de expressão afetiva dos pais atuais possui raízes históricas. Guo Ting, estudiosa da Universidade de Toronto, explica que a geração anterior atravessou a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), um período de violência e instabilidade onde as emoções pessoais eram negligenciadas em favor da lealdade ao Estado e ao líder Mao Tsé-Tung.

Essa herança de sobrevivência em ambientes inóspitos resultou em adultos que, embora busquem o sucesso dos filhos, não sabem como demonstrar amor ou empatia. Enquanto a imprensa estatal chinesa tenta promover a "piedade filial" e a compreensão dos jovens em relação aos pais, muitos, como Vincent, argumentam que compreender as dificuldades dos pais não anula seus próprios traumas.

Impacto social e apoio emocional

A influência dos "pais virtuais" chega a ter impactos profundos. Pan Huqian relata ter auxiliado jovens em crises graves de depressão e pensamentos suicidas através de conversas prolongadas, preenchendo um vazio deixado por famílias negligentes. Determinado a romper o ciclo de frieza que viveu em sua própria infância, Pan agora dedica sua vida a transmitir o amor paternal que ele mesmo nunca recebeu.


Referência: Informações adaptadas de G1.

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