
Sexta-feira Santa na Bahia: Tradições Afro-Atlânticas e Europeias Moldam Celebrações
Jorge Oliveira
Colunista
A celebração da Sexta-feira Santa na Bahia revela a rica tapeçaria de influências culturais que moldaram o estado. Em Salvador e no Recôncavo baiano, pratos icônicos da culinária afro-brasileira, como caruru e vatapá, ganham destaque, refletindo uma profunda herança afro-atlântica. Em contraste, em diversas cidades do interior, as tradições remetem a uma observância mais próxima do catolicismo europeu.
Raízes Históricas da Diferença
O historiador Ricardo Carvalho explica que essa dicotomia nas celebrações está intrinsecamente ligada às origens históricas e à intensidade da formação cultural de cada região. Salvador, como principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas portuguesas, desenvolveu uma densidade cultural africana contínua e pujante, que transborda para o cotidiano e para as manifestações religiosas.
“A diferença de Salvador e essas outras cidades está diretamente ligada à intensidade da formação histórica afro-atlântica da capital e do Recôncavo baiano. Salvador foi o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas portuguesas, o que acabou resultando em uma densidade cultural africana que é tão forte e contínua”, afirmou Carvalho.
Influência Africana no Luto e na Celebração
Em Salvador, a Sexta-feira Santa, que tradicionalmente marca o luto pela morte de Cristo, é reinterpretada. Alimentos associados ao sagrado afro-brasileiro, muitos deles ligados a oferendas para orixás, como Xangô e Iansã, tornam-se centrais. Essa releitura, segundo o historiador, é um processo histórico profundo de encontro entre matrizes culturais.
“A Sexta-feira Santa, que marca o luto pela morte de Cristo, é reinterpretada no contexto de Salvador como um momento de recolhimento que privilegia alimentos associados ao sagrado afro-brasileiro, muitos deles ligados às oferendas para orixás como Xangô, Iansã, etc.”, detalha Carvalho.
O caruru, por exemplo, transcende o aspecto religioso e carrega um forte valor simbólico e comunitário, associado a rituais e festas que promovem a partilha e a coletividade.
Perspectivas Afro-Brasileiras sobre a Morte
Para o babalorixá Vilson Caetano, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a alimentação desempenha um papel central na forma como povos de origem africana abordam a morte e a espiritualidade. Ele ressalta que, na cultura africana, a morte não é vista como um fim, mas como uma continuidade.
“Na Sexta-feira da Paixão, o catolicismo lembra a morte de Jesus. Os africanos escravizados também tomavam parte dessas celebrações, sendo obrigados a participar de alguma maneira delas”, disse Vilson. “Desta maneira, a morte de Jesus, principal liderança do Cristianismo, é celebrada desta maneira. Daí o banquete servido com iguarias originadas das cozinhas da África Ocidental na sexta-feira em que se comemora a Paixão de Cristo.”
Caetano explica que, nessa perspectiva, a celebração com fartura – comer e beber – é essencial para a entrada no mundo dos antepassados. A morte de Jesus é compreendida como um momento de ressurreição, não havendo a espera pelo terceiro dia, pois a vida é vista como uma continuidade que deve ser rememorada com alimentos e bebidas.
Tradições no Interior
Em contrapartida, cidades como Barreiras e Vitória da Conquista, com formações históricas ligadas à expansão pecuarista e a fluxos migratórios distintos, apresentam um cardápio na Sexta-feira Santa mais alinhado às práticas tradicionais do catolicismo europeu. Embora a influência africana esteja presente, ela não se estruturou da mesma forma no cotidiano ritual alimentar.
Referência: Informações adaptadas de G1.