Rússia Ruma ao Isolamento Digital Total: Apagões, Censura e o Retorno à Era Analógica
Tecnologia

Rússia Ruma ao Isolamento Digital Total: Apagões, Censura e o Retorno à Era Analógica

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Caio Alves da Gama

Colunista

1 de abril de 2026
5 min de leitura

A Rússia está vivenciando um período de intenso isolamento digital, com o governo intensificando o cerco à internet livre. Apagões frequentes, o bloqueio de plataformas estrangeiras e a perseguição a ferramentas de privacidade estão forçando a população a buscar soluções da era analógica, como pagers, telefones fixos e mapas de papel.

O Crescente Cerco Digital do Kremlin

Desde a invasão da Ucrânia em 2022, o governo russo, sob a liderança de Vladimir Putin, tem endurecido o controle sobre o fluxo de informações online. Redes sociais como WhatsApp, Instagram e Facebook já pararam de funcionar ou foram bloqueadas no país. Contudo, o foco agora se volta para o Telegram, principal meio de comunicação com cerca de 100 milhões de usuários, que sofre bloqueios contínuos e enfrenta a iminente ameaça de ser completamente desligado.

Apagões digitais tornaram-se uma constante em todo o país, afetando até mesmo grandes metrópoles como Moscou e São Petersburgo. Serviços básicos, como chamar um táxi, realizar pagamentos ou fazer ligações, frequentemente ficam indisponíveis sem aviso prévio. Sites considerados "pouco confiáveis" pelo regime são proibidos, e o acesso à informação externa é severamente restrito.

A Volta à Era Analógica

Diante da crescente dificuldade de acesso à internet, os russos estão recorrendo a tecnologias consideradas obsoletas. A busca por alternativas impulsionou a venda de walkie-talkies, telefones fixos, pagers, mapas impressos e até mesmo antigos tocadores de MP3. Uma clara demonstração da regressão digital imposta pelo governo.

Caça às VPNs e o Futuro Incerto do Telegram

Nesta semana, o Kremlin intensificou sua mira nas VPNs (redes privadas virtuais), ferramentas essenciais que permitem aos usuários contornar a censura digital do regime. O ministro da Digitalização, Maksut Shadayev, afirmou que o objetivo é "reduzir o uso" dessas redes para "restringir o acesso a uma série de plataformas estrangeiras" que, segundo ele, não respeitam a legislação russa em termos de segurança e combate ao terrorismo.

Até meados de janeiro, mais de 400 VPNs foram bloqueadas, um aumento de 70% em relação ao final do ano passado. A pressão resultou na remoção de aplicativos de VPN da App Store da Apple na Rússia. Especialistas preveem que os bloqueios na internet móvel, embora ainda não sistemáticos, podem se tornar rotineiros em Moscou e potencialmente em todo o país, seguindo um modelo similar ao observado no Irã.

A preocupação principal, entretanto, recai sobre o Telegram. Apesar de ser desenvolvido pelo russo Pavel Durov, o aplicativo, hoje baseado nos Emirados Árabes, tornou-se um dos últimos redutos de comunicação livre e é crucial para milhões, incluindo soldados em operação na Ucrânia e prefeituras em zonas de conflito. O bloqueio total do Telegram, embora as autoridades possam adiar a decisão, é uma possibilidade iminente.

Justificativas Oficiais e Descontentamento Crescente

O Kremlin justifica as restrições à internet móvel como uma medida necessária para combater drones ucranianos. No entanto, o descontentamento com as medidas está gerando críticas até mesmo de figuras alinhadas ao regime.

O governador de Belgorod, região fronteiriça com a Ucrânia, expressou publicamente que as interrupções estavam causando "mortes desnecessárias" no conflito. Vídeos de soldados russos no front, mascarados para dificultar a identificação, circulam online, pedindo ao Kremlin que recue, afirmando que o Telegram é crucial para suas operações.

As repercussões chegaram até a câmara baixa do Parlamento em Moscou, que, em um raro movimento crítico, colocou em votação um pedido para que o Kremlin justificasse o bloqueio do Telegram. Embora a proposta tenha sido rejeitada por 102 votos contra 77 a favor, o número de votos favoráveis expôs um notável desconforto interno com a medida. Tentativas de manifestações públicas contra as restrições foram negadas, e protestos em Moscou já resultaram em prisões.


Referência: Informações adaptadas de G1.

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