
Sol Sertão Online
Colunista
Vídeos gerados por inteligência artificial (IA), inspirados na estética do jogo Lego, têm ganhado destaque nas redes sociais. Apesar da aparência lúdica, essas produções, que mostram cenas como crianças morrendo, caças militares e o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são na verdade peças de propaganda pró-Irã. A mensagem central desses clipes é a de que o Irã estaria resistindo a um suposto opressor global todo-poderoso: os Estados Unidos.
Os clipes se destacam pela sua natureza chamativa e direta, o que, longe de diminuir seu alcance, tem impulsionado o compartilhamento e os comentários por parte dos internautas. Embora à primeira vista possam ser associados a cenas de um filme de Lego, suas imagens são mais vívidas e aceleradas, criando um impacto visual imediato.
Em um dos vídeos, Donald Trump aparece caindo em um turbilhão de documentos do chamado “arquivo Epstein”, com letras de rap sugerindo que “segredos estão vazando, a pressão está aumentando”. Outro clipe retrata George Floyd sob a bota de um policial, acompanhado pela narração de que o Irã está “aqui por todos aqueles a quem o seu sistema já prejudicou”.
Especialistas descrevem esse tipo de conteúdo como “slopaganda”, um termo que, embora pareça depreciativo, não captura a sofisticação e o poder de alcance desses materiais. Estima-se que clipes de propaganda gerados por IA já tenham alcançado centenas de milhões de visualizações, especialmente ao longo do conflito entre os EUA e o Irã.
Em entrevista, um representante da Explosive Media, uma das principais produtoras desses vídeos, que pediu para ser identificado como Sr. Explosive, admitiu que o regime iraniano é um cliente. Embora inicialmente negasse vínculos com o governo, ele posteriormente confirmou a relação, algo inédito em suas declarações públicas.
O Sr. Explosive explicou que sua equipe, composta por menos de dez pessoas, utiliza gráficos em estilo Lego por considerá-la uma “linguagem universal”. Contas ligadas a mídias estatais iranianas e russas têm compartilhado ativamente esses vídeos, atingindo milhões de seguidores.
A inclusão recorrente dos arquivos Epstein nos vídeos, segundo o Sr. Explosive, serve para ilustrar o “tipo de confronto” em curso entre o Irã, que busca “verdade e liberdade”, e aqueles associados a “canibais” – uma referência a teorias conspiratórias sem comprovação factual.
Os vídeos frequentemente contêm imprecisões factuais. Um exemplo citado é a representação da captura de um piloto americano abatido, enquanto autoridades dos EUA confirmaram que o aviador foi resgatado por forças especiais. O Sr. Explosive contestou essa versão, alegando que o objetivo seria roubar urânio do Irã e que apenas uma pequena porcentagem do que Trump diz é baseada em fatos.
Essa narrativa alternativa tem sido amplificada por influenciadores em plataformas como o TikTok, que replicam as informações apresentadas nos vídeos como precisas. A IA permite que o Irã e outros atores atinjam públicos ocidentais de forma mais eficaz, utilizando ferramentas treinadas com dados ocidentais, o que as torna culturalmente mais apropriadas.
Especialistas caracterizam essas táticas como uma forma de “guerra memética defensiva”, necessária para combater a retórica dos EUA. Os vídeos, que surgiram no início de 2025, ganharam popularidade após o conflito entre EUA e Irã, apresentando cenas cada vez mais detalhadas de locais no Golfo sendo destruídos, o que não condiz com a realidade de danos limitados.
A produção desses clipes ocorre em “tempo real”, aparecendo rapidamente após grandes acontecimentos da guerra. Um vídeo sobre um acordo de cessar-fogo foi publicado antes mesmo do anúncio oficial.
O Sr. Explosive defendeu a relação de sua equipe com o governo iraniano, descrevendo-a como “honroso trabalhar pela pátria”, e classificou protestos recentes no Irã como um “golpe” financiado por Trump. Ele também rejeitou acusações de uso de clichês antissemitas, afirmando que os vídeos são “antissionistas” e que a representação de figuras políticas como Benjamin Netanyahu bebendo sangue destaca “atrocidades cometidas por ele”.
Apesar do bloqueio nacional de internet no Irã, que impede a maioria da população de acessar a rede, o Sr. Explosive afirmou ter conseguido contato com a BBC através de uma “internet para jornalistas” concedida pelo governo. O Irã é consistentemente classificado como um dos países mais repressivos em termos de liberdade de imprensa.
Plataformas de redes sociais têm tentado derrubar contas que veiculam esses vídeos, mas novas contas surgem rapidamente. Essa forma de diplomacia digital ágil e agressiva, que elimina intermediários e a mídia tradicional, tem o potencial de distorcer a compreensão dos eventos e aumentar o risco de má interpretação e escalada de conflitos.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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