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Mitomania: Quando a Mentira Deixa de Ser Escolha e Vira Sofrimento
Caio Alves da Gama
Colunista
Enquanto a maioria das pessoas mente esporadicamente ou quase nunca, estudos sobre comportamento humano revelam que uma pequena parcela da população concentra grande parte das inverdades. Nesses casos, a mentira deixa de ser pontual e evolui para um padrão frequente, persistente e difícil de controlar. Especialistas descrevem esse fenômeno como mentira compulsiva ou mitomania.
Embora o termo seja conhecido há mais de um século, a mitomania não figura como um diagnóstico formal nos principais manuais de psiquiatria. Contudo, a literatura científica e a prática clínica reconhecem-na como um comportamento que pode gerar intenso sofrimento psicológico e graves prejuízos nas relações sociais.
A Diferença Crucial: Intenção e Controle
A distinção fundamental entre mentir ocasionalmente e apresentar um padrão patológico reside na intenção e no controle sobre o comportamento. Segundo psicanalistas e psicólogos, a mentira comum é um ato direcionado, contextual e com um objetivo claro, seja evitar uma punição ou obter alguma vantagem.
Já na mitomania, esse controle se perde. A mentira deixa de ser estratégica e passa a ocorrer de forma repetitiva, muitas vezes sem um ganho evidente ou benefício claro. Ela se torna uma necessidade, um impulso difícil de frear, independentemente das consequências.
Causas e Fatores de Risco da Mentira Compulsiva
A ciência ainda busca caracterizar melhor a mitomania como um transtorno isolado, mas pesquisas indicam um padrão crônico, persistente e generalizado de mentira, associado a sofrimento psicológico e prejuízo no funcionamento social – critérios semelhantes aos de outros transtornos mentais.
Não há uma única causa para a mentira compulsiva. O comportamento é frequentemente resultado de uma combinação de fatores psicológicos, sociais e biológicos. Entre os mais citados estão baixa autoestima, uma necessidade intensa de atenção e dificuldade em lidar com frustrações. Impulsividade e busca por recompensa também podem reforçar o hábito, especialmente quando a mentira proporciona alívio emocional ou atenção imediata.
Em muitos casos, a mentira compulsiva aparece associada a outros transtornos mentais, como os de personalidade (narcisista, borderline e antissocial), além de quadros de ansiedade e depressão. Na leitura psicanalítica, a mentira pode até mesmo funcionar como uma forma de sustentar uma identidade, onde o indivíduo constrói uma narrativa imaginária, criando um “personagem” para si.
O Prejuízo à Realidade e às Relações
Um dos aspectos mais complexos da mitomania é a relação com a realidade. Diferente de quadros delirantes, onde há perda de contato com o real, o mentiroso compulsivo geralmente sabe que está mentindo. No entanto, essa fronteira pode se tornar difusa com o tempo, pois a repetição constante das histórias inventadas torna difícil distinguir o que é fato do que é fantasia.
Os prejuízos para quem vive sob esse padrão são severos: perda de credibilidade, rompimento de vínculos afetivos e isolamento social, além de um risco aumentado de ansiedade e depressão. Em situações extremas, o comportamento pode levar à construção de uma “vida paralela”, completamente sustentada por uma rede de mentiras.
Mitomania Tem Tratamento?
Sim, a mentira compulsiva pode ser tratada, mas o processo depende de uma avaliação individualizada. Como a mitomania frequentemente está ligada a outros transtornos, o tratamento geralmente envolve acompanhamento psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico.
O diagnóstico exige cuidado, pois é fundamental diferenciar uma mentira ocasional, comum na vida de qualquer pessoa, de um padrão compulsivo e persistente que gera sofrimento e afeta a vida do indivíduo de forma significativa.
Referência: Informações adaptadas de G1.