
Sol Sertão Online
Colunista
Apesar de a humanidade ler mais palavras do que nunca — com uma média estimada em 100 mil por dia —, a forma como consumimos esse conteúdo mudou drasticamente. De acordo com a neurocientista Maryanne Wolf, a transição para as telas de celulares e computadores transformou a leitura em pequenas "pílulas" de informação, priorizando a rapidez em detrimento da profundidade.
Diferente da fala ou da visão, a leitura não é uma habilidade genética. Ela é uma invenção cultural de aproximadamente 6 mil anos que exige a aquisição de um código simbólico complexo. Segundo Wolf, o cérebro humano possui um circuito plástico, o que significa que ele se adapta ao meio. Se a leitura se torna intermitente e fragmentada, como ocorre no ambiente digital, o cérebro pode perder a capacidade de realizar a leitura profunda.
A leitura profunda é essencial para a transformação de informações em conhecimento consolidado, pois exige habilidades de raciocínio abstrato e ativações mais intensas do córtex cerebral, permitindo que o leitor integre sentimentos e pensamentos à sua própria experiência.
Além do desenvolvimento cognitivo, a leitura é associada ao aumento da criatividade, inteligência e empatia. A escritora Cressida Cowell destaca que o hábito de ler por prazer é um dos fatores determinantes para o sucesso na vida adulta.
Nesse contexto, surge a biblioterapia — a prática de prescrever livros como ferramenta de cura para a alma e tratamento de questões emocionais. Desde a Grécia Antiga e consolidada em dicionários médicos no século 20, a técnica utiliza a ficção e a poesia para estimular a memória, confortar e desenvolver habilidades sociais nos leitores.
Pesquisas coordenadas por Anne Mangen, da organização E-READ, apontam para a chamada "inferioridade na tela". O estudo, que envolve acadêmicos de mais de 30 países, alerta que a digitalização da cultura está reduzindo o tempo dedicado a textos longos, o que pode prejudicar aspectos cognitivos e emocionais.
Enquanto alguns autores defendem que o livro é apenas um veículo e que a narrativa transmídia (aplicativos, games e blogs) é a evolução natural da história, cientistas alertam que a propensão a ler "por alto" pode apagar trajetórias neurais ligadas à razão e à emoção profunda.
Diante desse cenário, a solução não seria abandonar a tecnologia, mas desenvolver a capacidade de ser biletrado. A meta é que o ser humano consiga disciplinar a escolha do meio de leitura de acordo com o objetivo: utilizando a agilidade do digital para informações rápidas e preservando a leitura profunda para a absorção de conhecimento complexo e a nutrição da empatia.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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