
Sol Sertão Online
Colunista
A Argentina, reconhecida mundialmente pela excelência e maciez de sua carne bovina, enfrenta uma mudança inusitada em seus hábitos alimentares. Diante da disparada dos preços e de uma inflação persistente, a carne de burro começa a ganhar espaço como uma alternativa viável para o consumidor.
Em Trelew, na região da Patagônia, o projeto denominado "Burros Patagônicos" tem atraído a atenção do público. Idealizado pelo produtor rural Julio Cittadini, a iniciativa surgiu da necessidade de adaptar a pecuária ao clima rigoroso e ao relevo irregular da região, onde o burro se mostra mais resistente que o gado bovino ou as ovelhas.
A proposta já chegou a açougues e restaurantes tradicionais da cidade. No restaurante Don Pedro, a proprietária Carla Gutiérrez relatou que pratos como churrasco, linguiça e empanadas feitos com carne de burro foram um sucesso entre os clientes. Segundo Gutiérrez, a carne possui características semelhantes à bovina, porém é mais escura e apresenta menor teor de gordura.
O fator determinante para a aceitação do novo produto é o preço. Enquanto o quilo da carne bovina pode atingir 19 mil pesos, a carne de burro é vendida por aproximadamente 7.500 pesos — um valor quase três vezes menor.
Esse cenário reflete a perda do poder de compra da população argentina. Dados recentes indicam que o consumo de carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre deste ano, atingindo o menor nível em duas décadas. A inflação dos alimentos, especialmente carnes e derivados, tem sido um dos principais motores da crise no custo de vida do país.
Embora especialistas afirmem que o consumo de carne de burro ainda seja pontual e não impacte a produção nacional de larga escala, a tendência evidencia a profundidade da recessão econômica. O setor industrial e o comércio enfrentam retrações significativas, com a perda de milhares de postos de trabalho mensalmente.
O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que, embora o consumo de carne de burro não seja habitual, a prática não é proibida no país. Assim, a experiência em Trelew torna-se um símbolo de como a crise financeira pode forçar a alteração de tradições culturais profundamente enraizadas, como a dieta carnívora argentina.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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