
Sol Sertão Online
Colunista
Você já sentiu aquela irritabilidade súbita que desaparece logo após a primeira garfada de comida? Esse estado, conhecido globalmente pelo termo “hangry” (fusão das palavras inglesas hungry, faminto, e angry, bravo), agora tem uma explicação científica mais profunda. Um estudo publicado na revista The Lancet eBioMedicine revela que essa resposta biológica não depende apenas dos níveis de açúcar no sangue, mas da consciência de que se está com fome.
A pesquisa demonstrou que a queda da glicose influencia as emoções de forma indireta. Na prática, se a pessoa não percebe que está com fome, a redução da glicemia tem pouco impacto no seu humor. Portanto, a irritabilidade surge como uma resposta à percepção subjetiva do estado metabólico.
Um conceito central destacado no estudo é a interocepção, que é a capacidade do sistema nervoso de interpretar sinais internos do organismo. Indivíduos que possuem maior precisão interoceptiva — ou seja, aqueles que conseguem "ouvir" melhor o próprio corpo — tendem a apresentar menores oscilações emocionais.
Quando há essa conexão, a pessoa identifica a origem do desconforto e consegue regular a emoção simplesmente alimentando-se. O problema ocorre na desconexão: quando o indivíduo não identifica a fome, o cérebro pode atribuir a irritação a causas externas, o que frequentemente gera conflitos interpessoais e angústia sem motivo aparente.
O estudo também aponta que pessoas com maior Índice de Massa Corporal (IMC), especialmente aquelas com obesidade, podem apresentar uma precisão interoceptiva reduzida. Isso acontece porque o excesso de gordura visceral gera um estado inflamatório que interfere nos circuitos cerebrais de regulação do apetite, dificultando a distinção entre a fome real e outros estímulos.
Além disso, a relação entre metabolismo e humor mostrou-se mais intensa em mulheres. Essa diferença está ligada à fisiologia hormonal, já que as oscilações de estrogênio e progesterona durante o ciclo menstrual afetam a sensibilidade à insulina e o apetite, tornando o planejamento alimentar essencial para a estabilidade emocional feminina.
Para evitar crises de irritabilidade e episódios de compulsão, especialistas recomendam a prática da atenção plena e a diferenciação dos tipos de fome. A fome física surge gradualmente e aceita qualquer alimento, enquanto a fome emocional aparece repentinamente e geralmente busca alimentos hiperpalatáveis, como doces e salgadinhos.
Algumas estratégias para aprimorar a comunicação entre o cérebro e o corpo incluem:
1. Atenção plena: Comer sem telas, mastigar devagar e observar a progressão da saciedade.
2. Diário alimentar: Anotar o estado emocional e o nível de fome (de zero a dez) antes das refeições.
3. Estabilidade glicêmica: Manter hábitos alimentares regulares para evitar quedas bruscas de glicose.
Referência: Informações adaptadas de CNN Brasil.
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