Sol Sertão Online
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Os Estados Unidos reacenderam a polêmica em torno do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, ao citá-lo em um relatório que lista barreiras comerciais. Quase dez meses após o início de uma investigação comercial, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) incluiu o Pix em seu National Trade Estimate Report de 2026, apontando-o como uma prática que prejudica a competitividade de empresas americanas.
O documento, com mais de 500 páginas, menciona o Pix três vezes, destacando que o Banco Central do Brasil, criador, detentor e regulador da plataforma, concede tratamento preferencial ao sistema. Segundo o relatório, isso afeta fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA, que argumentam que o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500.000 contas.
Essa não é a primeira vez que os EUA demonstram descontentamento. Em julho do ano passado, a mesma agência abriu um inquérito para apurar se o Pix configurava uma "prática desleal" e violava a competitividade do setor produtivo americano.
O governo brasileiro reagiu prontamente. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou a soberania do país sobre o sistema, declarando: "Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix". O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também se manifestou em defesa do Pix, elogiando o modelo e sugerindo sua extensão para seu país.
Especialistas em comércio exterior apontam que os Estados Unidos não possuem jurisdição direta para agir contra o Pix. As ferramentas à disposição dos EUA se concentram no âmbito comercial, previstas na Seção 301 do Trade Act de 1974. Estas podem incluir a suspensão de benefícios e acordos comerciais, a restrição de importações ou a imposição de tarifas sobre produtos e serviços brasileiros.
Camila Villard Duran, especialista em direito econômico, explica que as ações dos EUA são mais um "mecanismo de pressão externa e econômica sobre o Estado brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos em si". Ela também observa que as críticas ao Brasil se assemelham às feitas a outros países com sistemas nacionais de pagamento, indicando uma estratégia mais ampla dos EUA para contestar práticas em serviços financeiros digitais.
A jurista acrescenta que a expansão do Pix e de outros sistemas de pagamento nacionais impacta o equilíbrio competitivo para empresas americanas como Visa e Mastercard. Mais amplamente, o fenômeno reflete uma reorganização da ordem monetária e financeira internacional, onde o controle sobre infraestruturas de pagamento e dados financeiros se torna um elemento central do poder estatal.
O debate sobre o Pix também ganhou contornos políticos no Brasil. Membros do governo têm utilizado a polêmica para reforçar o discurso de soberania nacional e criticar adversários políticos. O assunto promete ser um tema relevante nas discussões da eleição presidencial de 2026.
O endurecimento do tom dos EUA pode estar relacionado a eventos recentes, como o bloqueio brasileiro a uma proposta na OMC e a derrota judicial americana sobre a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). A Seção 301, usada na investigação contra o Brasil, surge como uma alternativa para taxar parceiros comerciais diante desse revés.
A diplomacia brasileira e a dinâmica das relações bilaterais entre Brasil e EUA serão cruciais para determinar o desfecho dessa controvérsia, que transcende a questão comercial e adentra o campo da soberania e do controle sobre infraestruturas críticas na economia digital.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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