
Sol Sertão Online
Colunista
A literatura contemporânea tem dado protagonismo a narrativas que exploram as tensões entre a imposição de modelos patriarcais e a solidão feminina. Autoras modernas vêm escrutinando temas como a violência psicológica nos casamentos e o desejo da maternidade, revelando o caráter traumático das heranças familiares.
Nesse contexto insere-se 'Cor de Defunto', romance de estreia da escritora fortalezense Cami di Malta. A obra apresenta a trajetória de Lilá, cuja infância foi marcada pela precariedade material, pelo medo constante de um pai violento e por um luto prolongado após a morte da mãe.
A narrativa intercala memórias da infância com o presente, momento em que a protagonista trabalha em uma agência funerária, atuando primeiro como vendedora de caixões e, posteriormente, no setor de embalsamamento. Para Lilá, o luto deixa de ser um processo de superação para se tornar um refúgio, um estado de limbo que a mantém conectada à figura materna.
A prosa de Cami di Malta é caracterizada pela contenção, evitando o sentimentalismo excessivo ou discursos vitimistas. A autora utiliza uma linguagem ágil e inventiva, pincelada por um humor mórbido que reflete a atmosfera da história.
A estrutura elíptica e fragmentária do texto traduz a sensação de incompletude gerada pela perda, reforçando a premissa de que a família pode ser, simultaneamente, fonte de afeto e de trauma.
Embora a construção da voz da narradora seja um ponto forte, a obra apresenta algumas oscilações de ritmo ao tentar abordar a complexidade da triangulação entre família, memória e luto.
O desfecho da narrativa, desencadeado por uma visita a uma cartomante, é apontado como um ponto controverso. A semelhança com a obra 'A Hora da Estrela', de Clarice Lispector, acaba funcionando, para alguns críticos, como um anti-clímax dentro da economia interna da história.
Referência: Informações adaptadas de UOL.
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