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Caos das Bets: Brasil vive o 'pior dos dois mundos' entre a legalização e a proibição
Mundo
Foto de An Lê Khánh na Unsplash

Caos das Bets: Brasil vive o 'pior dos dois mundos' entre a legalização e a proibição

SS

Sol Sertão Online

Colunista

2 de maio de 2026
5 min de leitura

O cenário asiático: contrastes entre Hong Kong e China

Enquanto Hong Kong convive com o jogo legalizado desde 1891, a China continental mantém a proibição total de qualquer forma de jogo desde 1949. Em Hong Kong, a estratégia governamental de canalizar a demanda para mercados regulados — como ocorreu com as apostas em futebol em 2003 — trouxe resultados ambíguos. O mercado ilegal não apenas sobreviveu, mas expandiu-se drasticamente.

Em 2024, as apostas ilegais de basquete em Hong Kong movimentaram entre R$ 44,5 bilhões e R$ 57 bilhões. O setor é marcado pela atuação de cartéis com servidores no Camboja, que recrutam jovens para a abertura de contas fantasmas destinadas à lavagem de dinheiro. Casos recentes incluem a detenção de um adolescente de 14 anos e o julgamento de jogadores profissionais de futebol por manipulação de resultados.

Já a China adota uma abordagem rigorosa, utilizando o "Grande Firewall" para bloquear sites estrangeiros e criminalizando o uso de VPNs para esse fim. Em 2025, o governo chinês repatriou 952 suspeitos em operações conjuntas com Tailândia e Mianmar, desmantelando plataformas que movimentaram R$ 1,7 bilhão.

O vácuo regulatório e o impacto no Brasil

O Brasil seguiu um caminho distinto que, na prática, resultou em prejuízos sociais e econômicos. Embora as apostas de quota fixa tenham sido legalizadas em 2018, o país permaneceu oito anos sem a devida regulamentação. A Lei 14.790 surgiu apenas em 2023, com regras que entraram em vigor somente em janeiro de 2025.

Este vácuo permitiu a proliferação de plataformas sem fiscalização. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio, as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo desde 2023. O gasto com apostas saltou 500% em dois anos, levando cerca de 270 mil famílias a um estado de inadimplência severa.

Crime organizado e a fragilidade do sistema

A contaminação do setor por organizações criminosas no Brasil assemelha-se ao modelo de Hong Kong. A Operação Narco Fluxo, da Polícia Federal, investiga a lavagem de R$ 1,6 bilhão através de apostas ilegais e tráfico de cocaína. No Rio de Janeiro, o Ministério Público identificou bicheiros que operam bets em Curaçao para lavar dinheiro.

A corrupção esportiva também ganhou evidência com a CPI da Manipulação de Jogos, que indiciou William Rogatto. O investigado confessou ter lucrado R$ 300 milhões ao manipular resultados de 42 times.

A experiência internacional deixa lições claras: a legalização sem a capacidade de reprimir o mercado paralelo apenas amplia a oferta criminosa, enquanto a proibição total exige um aparato de vigilância digital impossível de ser replicado em democracias. O Brasil, ao legalizar tarde e regulamentar ainda mais tarde, agora tenta conter um mercado que cresceu sem freios por quase uma década, o que pode gerar reflexos políticos imediatos.


Referência: Informações adaptadas de UOL.

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