
Sol Sertão Online
Colunista
Para muitos brasileiros, a luta contra o câncer começa com um obstáculo insuperável: a distância. O diagnóstico, que deveria desencadear uma corrida contra o tempo, frequentemente esbarra na dificuldade de acesso ao tratamento, especialmente à radioterapia, um dos pilares no combate à doença. A história de Jakeline Cardoso Lima, de 41 anos, moradora do interior do Amazonas, ilustra a dura realidade enfrentada por pacientes em diversas regiões do país.
Jakeline precisou de três dias de barco para chegar a Manaus e confirmar o diagnóstico de câncer de colo do útero. Sem opções de tratamento em sua cidade, foi orientada a permanecer na capital durante toda a terapia. A impossibilidade de arcar com os custos e a logística de deslocamento a forçou a mudar de residência temporariamente, levando uma das filhas para auxiliá-la e deixando a outra aos cuidados do avô. Foram seis meses longe de casa para completar 28 sessões de radioterapia, quimioterapia e outros procedimentos.
Essa experiência individual reflete um padrão nacional preocupante. Um estudo publicado na revista científica International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics, analisando mais de 840 mil procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), revelou que mais de 60% dos pacientes necessitam deixar seus municípios para realizar radioterapia. A distância média percorrida é de 120 quilômetros, mas essa média mascara um profundo abismo: pacientes da região Norte chegam a viajar seis vezes mais do que os do Sul para ter acesso ao mesmo tratamento.
Segundo o médico radio-oncologista Fabio Ynoe de Moraes, membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o cenário aponta para um problema estrutural: o acesso ao tratamento oncológico é, na prática, determinado pela localidade onde o paciente reside. Ele ressalta que a distância em linha reta, utilizada em estudos nacionais, não reflete o trajeto real, que pode envolver dias de viagem, especialmente em regiões como a Amazônia. Além disso, custos indiretos como transporte, alimentação e hospedagem, não considerados na análise, agravam ainda mais o impacto da distância.
A radioterapia, em muitos casos, exige sessões diárias durante semanas. Para Jakeline, a rotina diária de tratamento tornou inviável qualquer tentativa de deslocamento diário. A distância se torna, assim, um fator decisivo que pode comprometer o início da terapia e a adesão ao tratamento ao longo do tempo.
A desigualdade se acentua quando se trata de procedimentos mais complexos, como braquiterapia e radioterapia estereotáxica. Esses tratamentos demandam equipamentos de ponta e equipes especializadas, concentrados em poucos centros. Pacientes que necessitam dessas terapias percorrem distâncias ainda maiores, evidenciando uma disparidade no acesso à tecnologia. O estudo também sugere que o número de pacientes que desistem antes de iniciar o tratamento ou não conseguem o encaminhamento pode ser significativamente maior do que o registrado, tornando a desigualdade ainda mais profunda.
O Brasil enfrenta um déficit de aceleradores lineares, equipamentos essenciais para a radioterapia, que estão concentrados em grandes centros urbanos. Com o aumento da incidência de câncer e a falta de um planejamento de expansão e distribuição da rede, a tendência é de manutenção ou até ampliação das desigualdades regionais.
Para Fabio Ynoe de Moraes, a solução vai além do aumento da capacidade instalada. É crucial reorganizar a rede de saúde e direcionar investimentos para as regiões mais carentes, garantindo que a oferta de tratamento acompanhe as necessidades da população. Enquanto essa mudança não ocorre, o acesso ao tratamento oncológico no Brasil permanece uma questão de distância e de tudo o que ela impõe, transformando a jornada de luta contra o câncer em um desafio logístico para muitos.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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