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Sol Sertão Online
Colunista
Pesquisadores brasileiros apresentaram uma técnica promissora que pode otimizar a forma como o câncer de estômago é investigado. Um material que atualmente é descartado durante a endoscopia, o suco gástrico, pode ganhar um novo papel crucial. A pesquisa indica que a quantidade de DNA presente neste líquido, aspirado no início do exame, pode ajudar a identificar tumores e fornecer informações valiosas sobre a evolução da doença.
A proposta não é substituir a biópsia, ainda considerada o padrão-ouro para o diagnóstico, mas sim complementar e tornar o processo mais preciso. A nova técnica surge como uma camada adicional de informação, especialmente útil nos casos em que o diagnóstico é mais complexo e há um risco maior de o câncer passar despercebido.
O cirurgião oncológico Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center e responsável pela pesquisa, explica que o exame mede a quantidade de material genético humano “solto” no líquido do estômago. Esse volume de DNA é um sinal indireto do que está ocorrendo no tecido. A lógica é simples: tecidos doentes tendem a liberar mais fragmentos de DNA no ambiente ao redor.
No caso do câncer gástrico, essa liberação intensificada ocorre por diversos fatores. O tumor cresce rapidamente, provoca destruição celular e ativa uma forte resposta inflamatória e imunológica. Todo esse processo contribui para que mais material genético seja liberado no suco gástrico.
Coimbra detalha que esse DNA não provém de uma única fonte; parte dele é liberada pelas próprias células tumorais, mas há também uma contribuição significativa de células inflamatórias e do sistema imune que atuam contra o tumor. Por essa razão, o marcador funciona como um indicativo de que há algo anormal na mucosa do estômago, e não como um “teste direto de câncer”.
Um dos principais diferenciais do método é a facilidade de sua incorporação à prática clínica. Durante a endoscopia digestiva alta, que já é amplamente utilizada para investigar sintomas e diagnosticar o câncer, o médico rotineiramente aspira o líquido do estômago para melhorar a visualização da mucosa. Atualmente, esse material é descartado.
A proposta é simples: aproveitar esse mesmo líquido para análise, eliminando a necessidade de novos procedimentos ou exames adicionais para o paciente. A coleta ocorre no mesmo momento da endoscopia, sem aumentar significativamente o tempo ou o risco do procedimento.
O potencial mais imediato da técnica reside na superação de uma limitação conhecida da biópsia. Embora essencial, a biópsia depende da coleta de pequenos fragmentos de tecido, que podem não representar adequadamente a lesão, especialmente quando o tumor está em camadas mais profundas ou distribuído de forma irregular. É nesses cenários que a análise do suco gástrico pode ser de grande ajuda.
Segundo Coimbra, o teste pode oferecer suporte quando a biópsia é inconclusiva, quando o material coletado é insuficiente ou quando a suspeita clínica não se alinha com o resultado inicial. Ao coletar material liberado por diferentes áreas do estômago, o líquido funciona como uma “amostra ampliada” do que está acontecendo no órgão, aumentando as chances de detectar casos suspeitos já na primeira endoscopia e reduzindo situações de diagnóstico incerto.
Apesar do potencial, os pesquisadores mantêm a cautela em relação ao uso isolado do exame. O desempenho diagnóstico é considerado moderado, e o DNA presente no suco gástrico não é exclusivo do câncer. Inflamações, gastrite e outras condições benignas também podem elevar os níveis do marcador, gerando risco de falso positivo. Por isso, a interpretação dos resultados precisa ser feita sempre em conjunto com outros dados clínicos, endoscópicos e histológicos, funcionando como um complemento à biópsia, e não como uma substituição.
O estudo também trouxe um achado interessante: em alguns pacientes, níveis mais altos de DNA no suco gástrico foram associados a uma melhor evolução da doença, o que, à primeira vista, pode parecer contraditório. A explicação mais provável está na resposta imunológica do organismo. Pacientes com maior concentração de DNA tendiam a apresentar mais células inflamatórias infiltradas no tumor, um sinal de que o sistema imune estava mais ativo no combate à doença, o que pode estar ligado a um prognóstico mais favorável.
Apesar dos resultados promissores, o método ainda está distante de se tornar uma rotina. Entre as limitações apontadas pelos próprios pesquisadores estão o fato de o estudo ter sido realizado em um único centro especializado, a necessidade de validação em populações maiores e a ausência de acompanhamento longitudinal para avaliar seu uso no monitoramento da doença. A origem exata de todo o DNA medido também precisa ser mais bem esclarecida.
Se confirmado em estudos mais amplos, o principal impacto da técnica seria transformar a endoscopia em um exame ainda mais completo. Além de permitir a visualização da lesão e a coleta de biópsias, o procedimento passaria a incluir uma análise molecular simples, realizada a partir de um material já rotineiramente aspirado. Isso pode ser especialmente útil em casos difíceis, como lesões pouco acessíveis ou biópsias duvidosas, reduzindo as chances de que um câncer de estômago passe despercebido.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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