/

Jorge Oliveira
Colunista
A tradicional abstinência de carne vermelha durante a Quaresma, especialmente na Sexta-Feira Santa, é um costume profundamente enraizado em muitas famílias católicas brasileiras. A escolha do bacalhau como prato principal nessa data, no entanto, não possui uma única explicação, mas sim um conjunto de fatores históricos, religiosos e culturais que remontam à influência portuguesa no Brasil.
Especialistas apontam que a prática tem origem na colonização portuguesa, onde a conservação de alimentos era um desafio, especialmente em períodos de jejum. O bacalhau, por ser um peixe salgado e seco, podia ser armazenado por longos períodos sem refrigeração, tornando-se uma alternativa viável à carne vermelha, especialmente durante o verão brasileiro, época em que a Quaresma frequentemente coincide.
O padre Eugênio Ferreira de Lima, com quase 40 anos de sacerdócio, questiona a lógica do consumo de bacalhau, muitas vezes mais caro que outras carnes, e a ausência de doação do que se deixa de comer aos mais necessitados. Sua reflexão ganha força em tempos de inflação, que afetam o poder de compra das famílias.
O historiador André Leonardo Chevitarese, da UFRJ, ressalta que a questão não é puramente econômica, mas sim religiosa e simbólica. Para ele, a abstinência de carne está ligada à reflexão sobre o sacrifício de Jesus na cruz e a busca por autocontrole diante dos prazeres humanos. A teologia da abstinência, segundo o filósofo São Tomás de Aquino, associava a carne vermelha à luxúria e aos "pecados da carne", reforçando a ideia de renúncia.
O peixe, em si, carrega uma forte simbologia cristã. Jesus tinha pescadores entre seus discípulos, e o peixe era um alimento importante na cultura judaica. Além disso, a palavra grega para peixe, ichthys, servia como um acrônimo para "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador", utilizado pelos primeiros cristãos perseguidos como um símbolo de identificação.
A disseminação do bacalhau no Brasil está diretamente ligada à chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808. A iguaria, com sua longa durabilidade, tornou-se popular nos empórios e foi gradualmente incorporada à culinária brasileira durante a Quaresma, especialmente na Sexta-Feira Santa.
A vaticanista Mirticeli Medeiros enfatiza que não há prescrição específica da Igreja sobre o bacalhau, e sua popularidade se deve à influência dos costumes portugueses e ao pragmatismo de sua conservação. Ao longo do tempo, o hábito foi se consolidando e, em um contexto de mercado, a tradição se tornou uma oportunidade comercial, com vendedores de peixe beneficiados.
A prática, portanto, mescla elementos de devoção religiosa, tradição cultural herdada da colonização e, mais recentemente, a influência do mercado. A escolha de substituir a carne vermelha pelo bacalhau na Sexta-Feira Santa é um reflexo complexo dessa intersecção, onde a fé e o pragmatismo histórico se encontram com as dinâmicas comerciais atuais.
Referência: Informações adaptadas de G1.
Carregando autenticação...
Carregando comentários...