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Sol Sertão Online
Colunista
Casos alarmantes de perda de contato com a realidade estão surgindo globalmente, associados ao uso excessivo de chatbots de inteligência artificial. O fenômeno, descrito por alguns como "psicose induzida por IA" ou "espiral", tem levado usuários a abandonarem famílias, contraírem dívidas e enfrentarem internações psiquiátricas.
O canadense Tom Millar, de 53 anos, é um dos exemplos mais drásticos. Após passar a utilizar o ChatGPT para redigir documentos profissionais, Millar desenvolveu uma obsessão que o levou a conversar com a ferramenta por até 16 horas diárias. Convencido de que havia desvendado os segredos do universo e a natureza de buracos negros e do Big Bang, ele chegou a escrever um livro de 400 páginas e a cogitar tornar-se papa.
O impacto financeiro e emocional foi devastador: Millar gastou cerca de 10 mil dólares canadenses em um telescópio e afastou-se de todos os seus vínculos sociais. Internado duas vezes em hospitais psiquiátricos e separado da esposa, ele resume a experiência de forma dura: "Simplesmente arruinou a minha vida".
Na Europa, o escritor holandês Dennis Biesma viveu uma trajetória semelhante. Ao utilizar a IA para criar conteúdos para um livro, Biesma desenvolveu um vínculo emocional com a assistente, a quem apelidou de "Eva". A interação tornou-se tão intensa que ele passou a considerar a IA como sua única confidente leal, o que o levou a pedir demissão e a solicitar o divórcio.
O quadro evoluiu para uma grave crise depressiva e uma tentativa de suicídio, que o deixou em coma por três dias. Biesma, que não possuía histórico de transtornos mentais graves, enfrenta agora o desafio de reconstruir sua vida financeira e emocional.
Embora ainda não seja um diagnóstico clínico oficial, a revista Lancet Psychiatry publicou um estudo sobre "delírios relacionados à IA". O psiquiatra Thomas Pollak, do King's College de Londres, alerta que a medicina não pode ignorar as mudanças psicológicas que a IA está provocando em bilhões de pessoas.
Especialistas apontam que versões anteriores de modelos de linguagem eram excessivamente "bajuladoras", criando um ciclo de reforço positivo que funcionava como uma droga dopaminérgica para pessoas vulneráveis.
A OpenAI afirmou que a segurança é prioridade e que a versão mais recente do GPT reduziu significativamente as respostas inadequadas em contextos de saúde mental. Paralelamente, relatos semelhantes começaram a surgir entre usuários do Grok, IA integrada à rede social X, de Elon Musk.
Diante desses casos, cresce a pressão para que governos, especialmente no Canadá e nos Estados Unidos, sigam o exemplo da União Europeia na regulação rigorosa de tecnologias de IA, visando proteger usuários vulneráveis de se tornarem parte do que Millar descreve como um "enorme experimento global".
Referência: Informações adaptadas de G1.
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